O papel do beija-flor de peito negro “puffleg” (Eriocnemis nigrivestis) criticamente ameaçado de extinção em redes de beija-flores-plantas (contribuição de Tatiana Santander e Esteban Guevara)

O Equador abriga espécies e ecossistemas únicos, muitos deles endêmicos e ameaçados. É o caso do beija-flor de peito negro “puffleg”, Eriocnemis nigrivestis, um beija-flor conhecido apenas na floresta andina do Equador (3000 – 3500 m) em duas localidades, nas províncias de Pichincha e Imbabura. Esta espécie habita o interior de floresta montana bem conservada e floresta anã de encosta com vegetação arbustiva abundante de Ericaceae, bromélias e orquídeas. A perda de habitat e as mudanças climáticas são as principais ameaças às espécies. A fim de projetar medidas de conservação adequadas à essa espécie de beija-flor, investigamos a história natural da espécie e descremos a rede de interações planta-beija-flor associadas ao beija-flor de peito negro “puffleg”. Ao descrever essas redes de interação fomos capazes de determinar quais espécies de plantas são críticas na dieta deste beija-flor. Esse conhecimento é relevante para a conservação, especialmente em sistemas que abrigam espécies criticamente ameaçadas. Descrevemos as redes planta-beija-flor durante um período de dois anos em três transectos de 1,5 km (reservas Verdecocha, Yanacocha e Alaspungo), localizadas nas margens noroeste do Vulcão Pichincha, onde o beija flor fora registrada anteriormente. Instalamos 12 câmeras todos os meses em cada transecto, onde também conduzimos o censo de flores mensal. Quantificamos as métricas a nível de espécie como centralidade por proximidade (ou seja, como as espécies compartilham recursos com muitas outras espécies) e por intermédio (até que ponto uma espécie interage com partes de outra forma não conectadas da rede). O beija-flor de peito negro “puffleg” foi registrado apenas em Verdecocha, junto com outras 10 espécies de beija-flores. Essa espécie foi registrada em 390 das 3.000 interações amostradas na Verdecocha. Ele alimentou-se de 16 das 41 espécies de plantas amostradas. As espécies de plantas mais frequentemente visitadas foram Macleania rupestris (Ericaceae), Guzmania bakeri (Bromeliaceae) e Palicourea fuchsioides (Rubiaceae). O beija-flor de peito negro “puffleg” teve valores bastante baixos de centalidade por intermédio (0,03 ± 0,01 DP) em comparação com a média obtida para a comunidade (0,09 ± 0,01 DP), e valores de centralidade por proximidade (0,1 ± 0,02 DP) próximos à média da comunidade (0,09 ± 0,02 DP). Esses números sugerem que, embora o beija-flor de peito negro “puffleg” não seja uma espécie central na rede de beija-flor-plantas em Verdecocha, ele interage com uma proporção relativamente grande de espécies em comparação com outras espécies na comunidade e, portanto, pode ter um papel importante na manutenção da estrutura da rede. Graças a este projeto ampliamos o conhecimento sobre o comportamento de forrageamento do beija-flor de peito negro “puffleg” e mostramos que o uso de câmeras programadas para amostrar intervalos de tempo é uma metodologia eficiente no estudo de espécies raras e ameaçadas (Figura 1). Aprendemos também que, embora os beija-flores de peito negro “pufflegs” se alimentem de flores de uma ampla variedade de espécies de plantas, eles se concentram na alimentação de um subconjunto dessas plantas. Essas informações foram traduzidas em ações de conservação com a implantação de uma estufa em uma comunidade local, onde um grupo de mulheres é responsável pela propagação de 30 espécies de plantas que foram identificadas como importantes para esse e outros beija-flores. No momento, pelo menos 5.000 plantas nativas foram semeadas em um esforço para restaurar e enriquecer habitats perturbados na área de distribuição desta espécie ameaçada.

Figura 1. Imagem de um beija-flor de peito negro “puffleg” macho alimentando-se de Guzmania bakeri e a pesquisadora Tatiana Santander capturada por uma das câmeras utilizada na amostragem de campo.
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